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(*) José Wilson Ibiapina

O jornalista Ari Cunha juntou tanta gente no aniversário dele, que só fui encontrar o Gilberto Amaral e a Mara nas fotos dos jornais do dia seguinte. Foi nesse clima de festa que o Adirson Vasconcelos chegou com uma brincadeira: -" Nós, longe de casa, somos os "Sem Ceará". E deu um chapéu pro Ari. Pensei até que o presente fosse alusivo à frase. Não era. Ele ganhara o chapéu no Pinto Martins , trazia do Ceará, de onde acabara de chegar, cheio de histórias de Santana. 0ra, se existem os sem-terra, os sem-teto, os sem comida, por que não os Sem -Ceará? Príncipe dos poetas cearenses, Artur Benevides já disse que o nome Ceará está em nós como um sinal de sangue, sonho e sol.
Os judeus criaram o Sefaradi - a pátria dos desgarrados. Pois somos diferentes. O judeu só tinha a pátria na cabeça, na imaginação. Nós, cearenses, sempre tivemos o nosso pedaço. Sem chuva, pobre, abandonado, mas nosso chão . Ex-governador do Ceará, o sociólogo Parsifal Barroso dizia que o cearense, mesmo o que não tem a cabeça chata, "não consegue trair ou dissimular as manifestações inequívocas do modo de agir, de ser."

O jornalista baiano Carlos Henrique de Almeida Santos foi quem me chamou a atenção para um artigo do pernambucano Nelson Rodrigues, que define essa singularidade do cearense. Segundo Nelson, Rodrigus "viajar é um gesto temerário, pois o viajante perde sua identidade e não adquire a nova do lugar para onde vai. O sujeito que viaja deixa de ser o homem de sua rua, de seu bairro, de sua cidade. Assim o carioca, o paulista, o gaucho se descarioquizam, se despaulistizam, se desgauchizam ao cruzar a fronteira de seu estado, de seu país. A única exceção é o cearense." Este, segundo o grande dramaturgo, continua cearense em todas as latitudes. Trazemos o Ceará marcado a fogo na alma de cada um de nós.

Na Casa do Ceará, em Brasilia, somos movidos pela coragem, a saudade , a solidariedade e o amor ao próximo. Essa Casa é um pedaço do Estado em Brasília. .( E pensar que ela nasceu numa mesa de jogo e que por muito tempo foi proibido bebida em suas dependências. Já viu cearense sem beber?) Aqui, o brasileiro tem abrigo, rede cheirosa e limpa para seu sono, profissionais cuidadosos para curar sua doença, livros e cursos para sua sede de saber . O mesmo sentimento que o poeta Jáder de Carvalho cantou em versos no seu “Terra Bárbara”: "Se o homem é bom , eu respeito/ Se é amigo, morro por ele/ Mas, se por que é forte achar de me humilhar / Ah, sertão!, Eu te acordarei ao som do tropel do meu cavalo errante/ Como antes de acordava ao choro da viola."

O cearense é assim. Por necessidade a gente vai embora. Vai sem querer ir, mas prometendo retornar, mesmo sabendo que jamais voltará. Aí a gente cria uma Casa, um Ceará dentro da gente. Ninguém no mundo ama sua terra como o cearense. É um sentimento telúrico, cósmico, sem explicação. Nós, "Sem Ceará", somos atacados de um sentimentalismo meio- piegas. Sentimos uma devoção por nossa terra. O compositor Humberto Teixeira, em entrevista ao Nirez, tentou explicar esse sentimento do cearense que vive fora: " ser cearense fora do Ceará é viver em estado de exaltação perene".

Os Sem Ceará de quem o Adirson fala somos todos nós que vivemos um estado de espírito, uma segunda natureza que, como dizia o Humberto Teixeira, " é querer reatar laços partidos que a distância, o tempo deixaram por aí" Os jornalistas Luís Edgar de Andrade e Vicente Arruda, hoje deputado federal, que também participam da diáspora cearense, resolveram promover, no Rio, encontros de conterrâneos. Um almoço de confraternização, de reencontro. Cada convidado contava sua história, tipo "peguei o Ita no Norte ..." Num desses encontros, eu estava presente, quando um senhor se apresentou. Contou toda sua saga que culminou com um curso de direito e um emprego no exterior, onde criou a legislação da aviação internacional. Feito exaltado em todo o mundo, mas que para ele não significava grande coisa, pois faltava que o Ceará soubesse disso. Ele queria o reconhecimento da terra, de seus iguais. É como o Humberto Teixeira disse ao Nirez: " é querer reviver no Ceará aquilo que nós construímos porventura lá fora, em outras terras".

Em Brasília nós somos muitos. No começo, os cearenses que vieram construir a cidade precisavam de ajuda, de referência. Os deputados Crisanto Moreira da Rocha e Álvaro Lins Cavalcante, um nobre de Pedra Branca, plantaram a semente da solidariedade, do companheirismo. Fincaram a Casa do Ceará, que hoje acolhe qualquer um, como os fundadores imaginaram. Dona Mary Calmon alimentou esse sentimento fraterno até a morte.

O ex-presidente Jèzer Oliveira passou o bastão para o Fernando César Mesquita, um dos fundadores, que se esforça para manter o pião na unha.

Um cearense pode até esquecer outro , mas não esquece o Ceará e por um motivo muito simples: nós é que saímos do Ceará , não foi o Ceará que saiu de nós, não.

 (*) José Wilson Ibiapina (Ibiapina) jornalista

 

 

 

Comentários  

 
0 #2 junior 29-09-2011 03:13
estou ficando fã do jornalista wilson Ibiapina das sua piadas verdadeiras.
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0 #1 EGNALDO ARAÚJO 13-02-2011 12:32
Aqui da Capital, Salvador, já se vão 20 anos de retorno ao nosso Torrão Natal - Bahia., contudo meu coração continua e continuará, assim como meu umbigo enterrado nesses lindissimos cerradões do Planalto Central.

Meus tres filhos candangos trazem consigo a grande alegria de serem brasilienses, onde cuutiram sua infância e pré-adolescência.

Assim só tenho gratíssimas lembranças dos meus amigos cearenses, goianos, sulistas e de todo esse amado Brasil-Candango.

Egnaldo Araújo - Jornalista Cultural
Diretor - presidente do Grupo Ecoterra-
Lauro de Freitas - Ba.
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