Presença do Ceará em Brasília através da Casa do Ceará Imprimir

(*) José Jézer de Oliveira

“Deste Planalto Central, desta solidão que, em breve, se transformará em cérebro das altas decisões nacionais...”. Estas as palavras iniciais do discurso que o presidente Juscelino proferiu no dia 2 de outubro de 1956, na Fazenda Gama, próxima ao local onde se ergueria a futura capital do País e as quais ressoaram como ordenação para o início imediato das obras de construção de Brasília.

Para muitos dos que, posteriormente, para aqui se transferiram, por injunção do exercício de cargo público federal, principalmente os egressos da ex-Capital, a palavra solidão inserta no discurso presidencial foi a gota que faltava para transbordar a taça de insatisfação pela mudança compulsória de residência. Inconformados, queixavam-se de tudo: da falta de praias, do clima seco, do pó, da inóspita paisagem do cerrado, da artificialidade da vida social e, principalmente, da angustiante solidão. Todo esse queixume era uma forma de demandar em palavra contra a cidade, à qual opunham forte resistência e torciam para que ela não desse certo. Morar aqui, para eles, era um castigo dos deuses.

Os descontentamentos, no entanto, já eram esperados, como conseqüência natural e inevitável da mudança brusca nos hábitos de vida dos novos habitantes. A alguns não afeitos ao espírito de pioneirismo a rejeição a Brasília se tornou patológica, chegando mesmo a provocar distúrbios de ordem psicológica. Planejada para ser diferente de qualquer outra cidade, aqui tudo foi feito de modo a harmonizar o traçado urbanístico às exigências de bem estar da população, e, assim, facilitar o processo de adaptação do homem ao novo meio. As superquadras do Plano Piloto foram exemplo disso. Dotadas de condições necessárias ao conforto social a que tinham direito os seus moradores, nem assim bastou para amenizar o azedume dos que reclamavam da aridez da vida em Brasília. O resultado é que tudo isso serviu de combustível à tresloucada idéia de retorno da Capital para o Rio de Janeiro, patrocinada, inclusive, por importantes órgãos da imprensa carioca, inconformados com a perda de status com a interiorização da Capital.

“Brasília é obra de um louco. O retorno da Capital para o Rio de Janeiro seria obra de um hospício inteiro”, escreveu à época o escritor mineiro Alberto Deodato.

A ação irresponsável e impatriótica dos saudosistas gerou um clima de instabilidade e de insegurança com relação ao futuro de Brasília, deixando inquietos os moradores da cidade. E foi sob essa atmosfera que um seleto grupo de cearenses comprometidos com o País e com sua nova Capital decidiu criar uma instituição que efetivamente não só marcasse a presença do Ceará no Planalto Central como também testemunhasse a crença da gente cearense nos destinos da nova Capital do País, cuja construção contou com a efetiva participação de milhares de trabalhadores cearenses. E, assim, na noite de 15 de outubro de 1963, sob o comando do deputado federal Chrysantho Moreira da Rocha, nasceu a Casa do Ceará em Brasília, fadada a ser um ponto de encontro dos cearenses da diáspora e, ao mesmo tempo, um centro de cultura, onde a memória e a história de um povo fossem cultuadas e compartilhadas por quantos aqui desgarrados da terra-mater. O objetivo maior era, através da integração, preservar nos migrantes cearenses o sentimento de conterraneidade e, ao mesmo tempo, reforçar a auto-estima dos que perderam o contato com as suas raízes culturais. Dessa forma, estar-se-ia promovendo entre os conterrâneos a manutenção do espírito de cearensidade, que, embora não passível de extinção, merece estimulado, a fim de preservar-se uma memória que se quer viva da terra natal.   A sua concepção, portanto, se deu em obediência à força imperativa desse sentimento arrebatador e peculiar a cada filho do Ceará e que, imantado em sua alma, o acompanha por onde quer que vá. É proverbial o fato de que o cearense não consegue viver sem a presença do Ceará em sua vida. Sua alma e sua mente estão impregnadas do torrão nativo. Mesmo vivendo longe, dele não se desapega, pois uma entranhada sensação de nostalgia como que deambula a todo instante por todo o seu ser, reclamando por algo que de alguma maneira satisfaça a necessidade da presença, virtual que seja, do Ceará em sua vida. Na visão profética de Chrysantho, a Casa do Ceará veio como resposta a essa necessidade. Atende de certo modo a agonia nostálgica do cearense aqui radicado. Para isso, atentou-se para a criação de uma ambiência que, de alguma forma, sinalizasse a presença do Ceará, tanto através de suas mais expressivas manifestações de cultura, bem como por meio de formas representativas dos hábitos e costumes da terra dos quais o cearense da dispersão se sentia privado. Cuidou-se, igualmente, de dotar a Casa de espaço físico necessário à montagem de um ambiente em condições de oportunizar o exercício da conterraneidade, que, efetivamente, se dá através do encontro, do aconchego, da camaradagem, do bate-papo descontraído e alegre, bem à maneira cearense, tal que se propiciem momentos agradáveis de convivência fraterna, ainda que esporádica. Há uma expressão bíblica que, parafraseada, dá uma idéia clara desse sentimento peculiar à nossa gente: onde dois ou mais cearenses estiverem reunidos o Ceará estará no meio deles, vivo, palpitante no  centro da conversa. Portanto, a prática da conterraneidade foi a fórmula encontrada pela Casa do Ceará para sedimentar entre a população de Brasília uma comunidade cearense, que na verdade já existia, mas dispersa. Faltava-lhe uma consciência formada de sua existência como tal.

Atentos a essa particularidade, Chrysantho, Álvaro Lins e Meire Porto, os primeiros a dirigir a Casa do Ceará, não pouparam esforços no sentido de promover ocasiões mais freqüentes de encontros informais dos conterrâneos aqui sediados, sabedores de que é nessas oportunidades que se tecem relações pessoais e de amizade, ingredientes indispensáveis ao fortalecimento do vínculo de conterraneidade e à manutenção da comunidade cabeça-chata, sem dúvida a de maior expressão no Distrito Federal. Para isso, além de outras atrações, a Casa passou a promover almoços mensais, com pratos exclusivos da culinária cearense. O encontro era ao ar livre e normalmente ocorria no último sábado de cada mês. Era uma festa de cearensidade, onde jamais se viu tanto cearense junto fora do Ceará. Esses eventos contavam ainda com a presença dos representantes cearenses no Congresso Nacional e de seus familiares, que à época, durante o exercício do mandato parlamentar, mantinham residência na Capital da República. O cardápio era variado: um mês, sarapatel; outro, peixada à moda do Ceará ou o disputado baião-de-dois à base de feijão de corda, queijo de coalho procedente do Ceará, acompanhado de carne seca, paçoca e manteiga da terra. A sobremesa, invariavelmente, rapadura do Cariri ou da Serra Grande. A bebida, cajuína. Uma curiosidade: a carne seca ou carne do Ceará, também conhecida como carne de sol, tão apreciada em todo o País, é produto genuíno da criatividade cearense. Um português, que durante anos residiu no Ceará, ao mudar-se para o Rio Grande do Sul levou consigo a fórmula e passou a produzi-la ali, dando assim origem ao charque gaúcho.

Outros tantos eventos ali realizados eram motivo para reunir integrantes da colônia cearense, tais como a tradicional missa de São José, padroeiro do Ceará e da Casa, celebrada no dia 19 de março; a comemoração do aniversário da Instituição, no dia 15 de outubro; o Natal do Idoso, patrocinado por senhoras cearenses aqui residentes; a Noite Cearense no Luar de Agosto, movimentada festa que sempre contou com a participação de conhecidos artistas e cantores cearenses; além das noites de autógrafos para lançamento de livros de autores cearenses, bem como exposição de obras de arte de renomados artistas plásticos do Ceará. Todos esses acontecimentos tinham por propósito assinalar a presença do Ceará em Brasília.

Na literatura, uma das mais expressivas manifestações de cultura da gente cearense, o Ceará também é presença marcante em Brasília. A biblioteca “Padaria Espiritual”, instalada na Casa do Ceará, conta atualmente com um acervo próximo de seis mil livros só de autores cearenses e também de escritores ali não nascidos, mas que, incorporados por opção à vida literária do Ceará, adotaram a terra como sua. O título da biblioteca evoca o mais vigoroso movimento literário surgido em Fortaleza em fins do século XIX, de repercussão nacional.
Nas artes plásticas, o Ceará está representado também de maneira expressiva. A pinacoteca da Casa do Ceará reúne quase uma centena de obras, entre pinturas e esculturas, muitas delas trazendo a assinatura dos mais festejados e renomados nomes da pintura cearense, como Raimundo Cela, Aldemir Martins, Chico da Silva, Antonio Bandeira, Afonso Lopes e outros mais que projetaram o nome do Ceará no panorama artístico nacional e até internacional.
Por último, o Museu do Artesanato, que reúne mais de mil peças desse importante segmento da arte popular, oriundas praticamente de todas as regiões do Ceará e também do Nordeste. 

A solidariedade e a filantropia também aparecem como traços marcantes da personalidade dos filhos do Ceará. Talvez tenham sua origem no sentimento de religiosidade, mas também nos dramas provenientes das catástrofes climatológicas que, periodicamente, se abatem sobre o Ceará, arrastando populações inteiras à fome e ao pauperismo. Diante desse quadro, o cearense torna-se um ser solidário com os que padecem a dor da miséria, o que justifica a existência de tantas instituições de caridade e de assistência social em território cearense.

Essa questão não escapou à atenção de Chrysantho e seus companheiros de Diretoria que inseriram a filantropia como um dos pilares da Casa do Ceará. O seu braço assistencial visava alcançar os migrantes cearenses de menor renda, facultando-lhes tratamento odontológico e consulta medica, através de atendimentos gratuitamente prestados em consultórios instalados na sede da própria instituição, mantidos com recursos provenientes da contribuição mensal dos sócios colaboradores. 

A população carente de cearenses em Brasília era muito grande, pois incalculável era o número deles espalhados pelos canteiros de obras na construção da cidade e que para aqui demandaram tão logo chegou ao Ceará a notícia de que o presidente Juscelino estava construindo no interior de Goiás a futura Capital da República. A informação mexeu com o espírito de irrequietude do cearense, que lobrigou aí a oportunidade que tanto almejava de abandonar um meio que não lhe oferecia condições de vida compatíveis com suas necessidades e aspirações. Milhares deles partiram em direção ao Planalto Central, provocando um verdadeiro êxodo da população sertaneja. Buscava-se nesse caso uma oportunidade de trabalho e não uma atitude movida simplesmente pelo propalado temperamento nômade do cearense. O obstinado apego que ele tem pelo torrão natal não lhe permite deixá-lo a não ser por um motivo muito forte. Duas são as circunstâncias que fazem o cearense deixar a terra-mater: a busca por melhor condição vida ou escorraçado pela seca inclemente. No primeiro caso pode ocorrer suplementar espírito de aventura. No segundo, prevalece o instinto de conservação. Ameaçado pela fome e pela sede, é forçado a deixar o querido torrão, levando consigo a esperança de um dia poder voltar. Abatido por profundo sentimento de impotência frente à força adversa da natureza, ele tem a consciência de que não está fugindo da seca, mas, por questão de sobrevivência, está simplesmente se retirando. É um retirante. É um bravo. Retira-se com dignidade. Não há o que fazer em uma terra faminta. Resistiu o quanto pode, até sentir desfalecer toda a sua capacidade de resistência aos desafios impostos pela natureza inclemente e avassaladora, já que as medidas governamentais não chegam para lhe assegurar a permanência e a sobrevivência.

Foi exatamente o que ocorreu em 1958, período no qual Brasília estava sendo construída. Milhares de cearenses foram obrigados a emigrar em decorrência das condições de insustentabilidade provocadas pela seca que naquele ano se abateu sobre o Ceará. Além de ameaçados na sua condição física pela inclemência da natureza, havia ainda a criminosa exploração da indústria da seca comandada por políticos e empresários inescrupulosos, verdadeiros ladrões de casaca que se aproveitam da miséria e da fome do pobre sertanejo para saciar a sua voluptuosa e insaciável fome de riqueza. O destino, portanto, desses flagelados seria, naturalmente, o Planalto Central, por ser o único no momento a oferecer reais possibilidades de trabalho.

Esperançosos e confiantes aqui chegaram os bravos e heróicos retirantes, juntando-se à multidão anônima de conterrâneos que aqui já se encontravam vertendo seu suor e suas lágrimas de saudade na construção da ciclópica obra jusceliniana, símbolo do arrojo e da tenacidade de um povo, na qual, através dos seus filhos, o Ceará marcou indelével presença.

 (*) José Jézer de Oliveira (Crato) Jornalista e Ex-Presidente da Casa do Ceará