A Casa do Ceará nos 50 anos de Brasilia Imprimir

Adyrson Vasconcelos (*)

Integra-se a Casa do Ceará nas comemorações dos 50 Anos de Brasília, ao evocar cinquenta nomes de cearenses que, pioneiramente, deixaram as plagas alencarinas para ter uma oportunidade de participação na grande epopéia que tem sido Brasília como cidade e Capital de todos os brasileiros.

Saímos do Ceará mas o Ceará não saiu de nós – disse, inteligente-mente, o conterrâneo e jornalista Wilson Ibiapina

Verdade, o cearense deixa sua terra, sejam quais forem as circunstâncias, para cumprir, noutra parte do Brasil, e até do mundo, missões a que a Providencia Divina o predestinou; mas não esquece o seu torrão, suas origens, os costumes e as paisagens nativistas do seu berço natal,  que José de Alencar soube tão bem retratar, pioneiramente na literatura brasileira, ressaltando “os encantos mil” da terra e o sabor de mel dos lábios de Iracema.

 O notável, porém, é que, ausente de seu habitat natural, o cearense logo se integra ao novo meio físico que o acolheu e logo se adapta e logo se envolve com o ambiente sócio-cultural e o cotidiano, amoldando-se aos hábitos e costumes, numa verdadeira miscigenação que só a antropologia explicaria.

Assim, tem sido sempre na história. E em Brasília, muito especialmente.

Destacar-se agora, nos 50 Anos de Brasília, a participação cearense na vida da cidade através do resgate da contribuição de alguns de seus filhos é uma iniciativa formidável da Casa do Ceará aqui. A idéia partiu, em boa hora, do presidente Fernando Cesar Mesquita e logo teve a acolhida de todos, da diretoria e de uma plêiade de sócios. O mérito da contribuição dos cearenses na vida brasiliense é reconhecido e latente. Desde os tempos da construção, o percentual de participação tem sido em níveis elevados e significativos, conforme as estatísticas.

A providência da edição de um livro-documento nas comemorações do cinquentenário é de elevado sentido sócio-cultural que valoriza a história de Brasília e engrandece o ser humano que deixou tudo para participar de uma epopéia nacional que a imprensa mundial chamou-a de a “obra do século”. A difícil e honrosa tarefa de coordenação da obra foi confiada, sabiamente, ao jornalista cearense João Bosco Serra Gurgel, que logo deu corpo à iniciativa e a implementou com eficiência e zelo. Constitui-se uma obra de arte e uma peça literária de alto valor para a história de Brasília e do Ceará.

Atitude de elevação como esta da diretoria da Casa do Ceará em Brasília temos observado em todos os tempos da existência do sodalício, desde a sua fundação, em 15 de agosto de 1963, quando seus fundadores fixaram, em estatuto, a universalidade da política administrativa de ação social da Casa do Ceará. Todos os brasileiros seriam beneficiados com os seus serviços de assistência e de filantropia, não só os cearenses.

Tal idealismo social e cívico devemos creditar aos fundadores da Casa, notadamente a Chrysanto Moreira da Rocha, que liderou o grupo da primeira hora, em 1963, e que são os seguintes (pela ordem alfabética):  Adahil Barreto Cavalcante, Álvaro Lins Cavalcante, Antônio Jucá, Carlos Alberto Pontes, Edilson Melo Távora, Edilson Nogueira Mota, Ernesto Gurgel Valente, Esmerindo Arruda, Esaú de Carvalho, Expedido Machado Ponte, Fernando Cesar Mesquita, Flávio Portela Marcílio, Francisco de Menezes Pimentel, Francisco Nogueira Saraiva, Gladstone Lima Almendra, Jorge Furtado Leite, José Flávio Costa Lima, José Jereisati, José Martins Rodrigues, Lopes de Andrade, Leão Sampaio, Luiz Tarcísio do Vale, Ozires Pontes, Padre José Palhano de Sabóia, Paulo Cajas, Raul Barbosa Carneiro, Sílvio Gaspar e Valter Bezerra Sá.

De 1963 aos nossos dias, a chama do idealismo de Chrysanto manteve-se acesa e iluminando ações de solidariedade humana pelas diretorias dirigidas pelos cearenses Álvaro Lins Cavalcante, Mary Porto, José Jezer de Oliveira e Fernando Cesar Mesquita, atual presidente.

Este tipo de comportamento altruístico do cearense não é coisa nova. Tem tradição histórica. É importante recordar (e isto nos enche de orgulho cívico e felicidade) que cinco anos antes da Princesa Isabel decretar a Lei Áurea abolindo a escravatura no Brasil, o Ceará já o havia feito por decreto do governador e maçom Sátiro Dias, em 1883, com o apoio da campanha do senador João Cordeiro (cearense de Santana do Acaraú), dos maçons, dos jangadeiros e das mulheres cearenses.

O gesto cearense repercutiu no Brasil e no mundo. Joaquim Nabuco, ao ter notícia do pioneirismo e da sensibilidade humana dos cearenses, afirmou, no Rio de Janeiro: “É pena que o Ceará não se possa derramar pelo Brasil”. Em Paris, o escritor Victor Hugo escreveu: “Uma Província do Brasil vem de declarar a abolição da escravatura. Esta é uma grande notícia”. O grande líder abolicionista José do Patrocínio foi, porém, quem melhor exaltou o humanitarismo cearense, ao afirmar: “O Ceará é o herói da abolição. É a terra da luz! É a terra da liberdade”. Por isso, o Ceará é, até hoje, chamado de “A Terra da Luz”.

Justifica-se, assim, até pela tradição, a índole cearense que levou os fundadores da Casa do Ceará em Brasília a fazê-la existir com ideais de justiça social, de solidariedade e amor ao próximo, inclusive com integração a brasileiros de outras partes do país, o que é muito significativo. E, agora, pela atitude do presidente Fernando Cesar Mesquita exaltando Brasília e seu povo no cinquentenário da cidade ao editar uma obra para revelar a interação dos cearenses na vida candanga.
Esta promoção não poderia faltar ante o significado da parcela de contribuição dos cearenses aqui radicados.

E mais que isto: pelo papel que Brasília tem representado, nestes cinquenta anos para o Brasil, como pólo irradiador de progresso sócio-econômico e cultural para todo o Centro Oeste brasileiro e o Grande Norte, desértico e desabitado até a feliz iniciativa do Presidente Juscelino Kubitschek de implantar, no ermo dos sertões do Planalto Central do Brasil, uma cidade-Capital com a potencialidade de promover a inclusão de dois terços do território interiorana ao todo nacional.

E com esta integração territorial, promover o desenvolvimento, não só econômico, mas, também, das potencialidades humanas e do pensamento para a conquista das riquezas telúricas do solo e do sub-solo do grande território até então desconhecido.
Tal fenômeno hoje se constata pelas estatísticas e pelos elevados índices de produtividade das regiões beneficiadas pela presença de Brasília, em todas as áreas do crescimento e do progresso.

E bem mais e muito mais que isto, a perspectiva futurológica de Brasília vir a ser - e está sendo - um grande centro formador de uma nova civilização, quando a preocupação maior será o bem comum.

Se olharmos para o passado de Brasília, seja no período dos dois séculos de debate do ideal de interiorização da Capital seja nesta fase dos últimos cinquenta anos de existência da cidade como Capital do Brasil, constatamos um pensamento nacional quase unânime a prognosticar, e até profetizar, uma surpreendente evolução social, política, cultural e espiritual para o Brasil tendo Brasília como centro irradiador de uma mudança e de uma evolução de mentalidade em todas as áreas do pensamento e ações efetivas.

A exemplo dos cearenses pioneiros de ontem, os de hoje e os do futuro, certamente, estarão participando, colaborando e vivendo o novo tempo quando predominará a igualdade dos direitos, a liberdade do pensamento e a fraternidade universal.

Faz bem a Casa do Ceará em participar, com esta obra, deste momento histórico, prenúncio de um futuro promissor para Brasília, para o Ceará, para o Brasil e, quiçá, para o mundo.

 (*) Adirson Vasconcelos (Santana do Acaraú)  Jornalista, Escritor e Historiador de Brasília.